Passar alguns meses trabalhando em outro país vem se tornando prática cada vez mais comum no Brasil, mesmo que os brasileiros não tenham ainda a estabilidade financeira nem a tradição cultural dos jovens europeus, que costumam tirar um “gap year” entre o colégio e a faculdade, para viajar ou trabalhar.
Quem quer atravessar os oceanos e não têm muita verba pode optar pelos trabalhos voluntários no exterior, programas em que os jovens arcam com a passagem aérea e recebem estadia e alimentação no local onde irão trabalhar. Ajudar no tratamento de animais feridos na África, ou de portadores de necessidades especiais na Inglaterra são algumas das opções que o viajante tem ao se decidir pelo voluntariado. A AFS Intercultura, a AIESEC e a Experimento são as maiores empresas do país a oferecer esse serviço. Juntas, elas têm convênio com mais de 90 países e em centenas de instituições de trabalho social. A lei brasileira dificulta o processo de trabalho voluntário em outros países, pois obriga a ONG de destino a solicitar o visto do trabalhador. Para solucionar esse problema, as empresas têm trabalhado com o estágio voluntário, que facilita os trâmites do processo.
A Europa e a Oceania são os destinos mais em voga para estudos, enquanto os Estados Unidos são os que mais recebem trabalhadores temporários. Considerando as entrevistas para emprego, busca de uma família anfitriã ou matrícula em instituição de ensino, além de aquisição de passaporte e vistos, seguro e passagens aéreas, é possível que o planejamento da viagem seja mais longo que a viagem em si. Até mesmo passes para trens europeus podem – e devem – ser comprados com antecedência no Brasil. Assim como estrangeiros podem comprar passagens aéreas entre diversos pontos do território brasileiro por tarifas mais baratas que as oferecidas aos nativos, os brasileiros pagam menos que os europeus nos passes de trem se eles forem adquiridos aqui.
O Brasil não recebe tantos jovens quanto poderia. Em média, são 18 mil por ano, contra 600 mil que visitam a Austrália, um dos destinos mais procurados por mochileiros. Uma das diretrizes do Ministério do Turismo para os próximos quatro anos é atrair os jovens europeus para o país, com o objetivo de abocanhar pelo menos uma parte do um bilhão de euros que eles vêm deixando na Austrália.
A ausência de mochileiros no país é atribuída à falta de estrutura para esse tipo de turista. O Brasil não conta com um grande número de albergues, alguns hotéis não gostam da presença dos mochileiros (muitas vezes confundidos com baderneiros, ainda que o perfil do viajante seja de europeus, norte-americanos, argentinos e brasileiros das classes A e B, de 20 a 30 anos), a violência urbana amedronta os turistas e poucas empresas contam com funcionários bilíngües.
No resto do mundo, o mercado de mochileiros só tende a crescer e atrair mais empresas. Recentemente, a gigante da hotelaria Accor entrou para o segmento com a Base Backpacker, rede que até agora conta com sete empreendimentos na Austrália e na Nova Zelândia. O grupo já pretende expandir seus negócios para a África do Sul, Canadá, França e Reino Unido, e está pesquisando as possibilidades de mercado em Bangkok, Singapura, Hong Kong, e Estados Unidos. O crescimento das empresas do setor de turismo jovem no Brasil indica que uma boa parte desse movimento pode partir das nossas terras.
Fonte: revista turismo gaúcho / edição 29
Autores: Augustu Melatti e Henrique Habib, consultores e acadêmicos em administração (UFLA).